Como fazer fotografia de rua em Santiago

Ganhei de presente de aniversário um curso de fotografia de rua, ou #streetphotography pra quem adora termos ingleses. Foi um dos melhores presentes que já ganhei na vida e quase choro na hora, pois sagitariana com lua em câncer. O curso era curtinho, apenas 16h, mas foi o suficiente para revolucionar a minha lógica de fazer fotos. E além do mais entrou para minhas big metas que falei aqui nesse post.

O curso fica em Santiago, Chile, e se chama Talleres Lumen. Lá existem cursos de ilustração, fotografia e outras áreas artísticas. Fiquei com um pé atrás quando vi que eles não tinham uma especialidade, e no fim das contas meu pressentimento foi certo porque eu tive críticas a fazer sobre a comunicação falha e o custo-benefício do curso. Por outro lado, tive a sorte de conhecer a minha professora, uma mulher responsável e muito inteligente. Sabe quando você percebe que a pessoa domina tal assunto? Isso me dava muita segurança.

Ela falou sobre o início da história da fotografia de rua, sempre com Bresson sendo fortemente citado por suas obras de arte. Achei interessante entender o motivo das fotos dele e a harmonia que tinham entre si. Meu resumo: um quadro fica interessante quando tudo que está dentro dele tem algo simétrico ou geométrico apontando para o que você quer. Como a célebre foto da escadaria e a bicicleta: perceba que Bresson pensou na foto antes de registrá-la. Ele entendeu que aquela escada fazia um “movimento” até o fim da rua e ele esperou. Quando o ciclista passou justamente pelo fim dos degraus a foto foi criada. Ou Bresson só teve sorte e a gente tá aqui feito besta debatendo arte espontânea, vai saber.

Acontece que o maior insight que já tive acerca da fotografia é que: não importa o que você faça, seja retrato, seja foto de paisagem, seja com pouca simetria e seja com nenhuma nitidez… Nada é errado, pois cada um tem uma perspectiva diferente e estamos falando de arte e não de matemática. Porém o mais importante é ter querido produzir aquela foto daquele jeito, ou seja, você fez exatamente o que estava planejando, ou perto disso.

Se foi sorte parabéns, vai ganhar likes e de repente o cliente vai gostar, mas foi algo aleatório e não estudado – um dedo apertando o gatilho não merece tanto destaque. Enfim, agora penso mais antes de clicar. Aprendi que retrato não precisa ser só do rosto e desenvolvi mais minha malemolência para conversar com as pessoas na rua e pedir suas fotos, embora o mais interessante nessa vertente da fotografia seja a espontaneidade dos transeuntes juntamente com a arquitetura e alma da cidade. Além disso, é fundamental introduzir o seu próprio sentimento na foto retratada. Por exemplo, o frevo do Recife é algo mágico e rápido pra mim. Tem muitas cores e me sinto feliz. A foto poderia ser pensada usando pouca velocidade pra pegar o borrão da dança, e talvez a melhor pedida fosse um retrato colorido ao invés de monocromático, já que as cores da bandeira de Pernambuco geralmente estão nos trajes dos dançarinos. Clicar um sorriso dançante nas circunstâncias anteriores seria a cereja do bolo. Mas isso é só um exemplo. Outro ensinamento: paciência. Você pode planejar uma foto e ter a calma de clicar quando sua previsão acontecer. Tipo alguém pular uma poça de água, ou passar exatamente naquele fundo incrível que você estava paquerando.

Outra coisa: quando estou fotografando com seriedade já não aceito mais objetos que nada tem a ver com o que quero retratar. Estou mais exigente comigo mesma. Minimalismo também foi algo que desenvolvi um pouco mais nesse curso e também tive o discernimento de que escolher previamente um tema é desafiador, mas o foco e a série depois ficam impagáveis.

Falo de tema porque o curso teve uma ideia genial: Todas as disciplinas de verão teriam que abordar um único viés previamente acordado. Esse ano o assunto foi “Marginalidades Cotidianas”. São grupos que estão à margem da sociedade por serem excluídos de alguma maneira ou por não serem normatizados. Eram: terceira idade, diversidade de gênero, trabalhadores ambulantes, imigrantes e indígenas.

As aulas foram feitas em dois sábados consecutivos. Uma pela manhã e início da tarde e outra começando a tarde e terminando de noitinha. Foi muito rápido e acabei não estreitando laços com ninguém, too bad. Acho que só com minha professora (somos migas de Facebook, HAHA). O grupo ficou de marcar uma viagem a Valparaiso. Essa cidade tem trocentos gatos nas ruas e paredes repletas de arte e pintura. Lembrei-me de Olinda quando estive lá em 2015. Já quero voltar!

O curso foi finalizado na semana passada com uma exposição com todos os alunos de todos os cursos. O lugar que não era tão grande ficou abarrotado de gente e eu tomei vinho em copo de plástico porque as taças já tinham acabado. Apesar do copo, senti-me rica na minha primeira exposição, mas ao mesmo tempo sofri porque o meu “paspartú” (clica aqui pra aprender como faz), papel branco que emoldurava a minha foto, foi o pior de todos. Não fiz um acabamento muito bom e umas partes ficaram soltinhas, enfim, meu estilete era uma porcaria e acabou dando nisso. Fui péssima com esse trabalhinho manual. Vida que segue.

Ganhamos certificados de conclusão (o meu estava errado e eles vão ter que reimprimir, aff) e um abraço apertado da professora, com direito a subir no palquinho e tudo.

Oportunidades de melhoria para o curso: a comunicação era ruim. Até hoje ninguém me respondeu um e-mail, por exemplo. O professor que está listado no site não é o mesmo que estava na sala. Ou seja, meu prévio trabalho de stalker foi em vão. Tinham cinco pessoas na “chamada”, porém doze alunos vieram e não existia registro deles, o que nos fez perder tempo com a professora escrevendo seus nomes e e-mails. Aliás, o tempo é curtíssimo para desenvolver algo, pois teve aula teórica só nas primeiras horas do primeiro dia e visivelmente faltou tempo para analisarmos mais imagens de fotógrafos consagrados. O paspartú é complicadinho de fazer e eles poderiam sugerir um dia para todos desenvolverem juntos. E um curso na bagatela de R$ 300 poderia ao menos custear a foto e a moldurinha de papel sem pedir ao aluno, né? Além de tudo isso eles marcaram o evento muito próximo da última classe e grande parte dos alunos ficaram irritados. Eles acabaram mudando a data e só metade da sala apareceu: os demais tinham compromissos e acabaram deixando de ir. Triste.

Mas como tudo na vida: valeu a pena, principalmente porque foi um presente de alguém muito especial. Fiquei pensando em escrever um e-mail gigantesco pra dar feedbacks e eles melhorarem, mas deu preguiça de enviar uma consultoria gratuita. Só que acabei trazendo pra cá, HAHA. Também pensei em sugerir que eles contratassem alguém pra melhorar a apresentação em power point. Foi meio vergonhoso ver um ppt simplório em um curso que supostamente dá aula de um monte de coisa artística. Design é meio que obrigatoriedade para esse ramo, não? O curso foi salvo pela Gabriela Jara Ramos, e por isso eu indicaria a compra (ou o contato direto com ela, vai saber).

No mais, trouxe as fotos que mais gostei das aulas práticas. A plaza de Armas foi o lugar mais clicado, além de outros pontos do centro. Acabei explorando muito mais a terceira idade e percebi o quanto de idoso existe na ativa por aí, andando pra lá e pra cá no centro de Santiago.

Se quiser ver mais fotos vem aqui no Flickr e aproveita pra me acompanhar <3.

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E vocês? Fizeram ultimamente algum curso? Aprenderam algo de fotografia? Indicam? Me contem nos comentários! ❤

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12 comentários Adicione o seu

  1. Que bom que valeu a pena. Eu gosto muito de fotografia de rua e do Bresson também, sempre fico imaginando o que se passava na cabeça das pessoas durante o momento da foto. Achei lindo seu trabalho, costumo pensar que deveria ter fotografado isso ou aquilo, fotografia é uma paixão e eu espero um dia poder me aventurar mais nela. Gostei demais da penúltima foto e a da biblioteca ao ar livre.
    Beijos!!
    Blog Amanda Hillerman

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    1. Que bacana esse comentário, Amanda! Amei. E fotografia é muito amor! Sempre gosto de aprender mais e mais dessa arte. E tou pulando de alegria aqui já que gostou da série. Brigada pela força! 💖💕✨

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  2. SUAS FOTOS! Não consigo decidi qual gostei mais, ficaram todas tão lindas! Parabéns, Aline ❤

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  3. Milena Maciel disse:

    Amo fotografia de rua e não fazia ideia que existe um curso espicifico pra isso, pena que dura poucas horas, mas pelo menos foi proveitoso né? As fotos ficaram lindas ❤

    Bjs
    oh, wow, lovely ❁

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    1. O povo faz curso de tudo quanto é coisa, haha. Mas de fato é interessantíssimo pesquisar esse assunto e se inspirar com os feras da histórias. Vale a pena! ❤

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  4. Suas fotos são lindas, realmente é um trabalho belo! Parabéns mesmo. ❤ Meu primeiro contato com a fotografia de verdade foi durante as minhas aulas de comunicação visual, e posso dizer que mudou TUDO em relação ao meu olhar! As leis de Gestalt também me ajudaram muito, ter noção de equilíbrio, cor, textura, luz, sombra, enquadramento… Não sou nenhuma especialista, pelo contrário, só admiro mesmo e gosto de saber mais sobre o assunto. Uma das minhas – se não A – fotógrafa preferida é Vivian Maier! ❤

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    1. Sua maravilhosa! 😍♥️

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  5. adoro ver que tás praticando sempre ❤ me dá sempre vontade de tomar vergonha na cara e sair pra rua com a câmera também! pena que a vida tem se metido no meio, mas ainda tem um ano todinho (já que só começou de fato agora :P) pela frente, né? beijo! ah, e tu arrasa.

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    1. ai, luisa por aqui, que honra ❤ sim, eu tava colocando como prioridade nos meus dias, sabe? Mas acho que em breve terei menos tempo. Brigada por aparecer por aqui ❤

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  6. K. disse:

    Achei demais tudo que escreveu sobre o curso, e as coisas boas que tirou dele. Por mais que não tenha sido tão organizado quanto deveria, deu a sorte de encontrar uma boa professora pelo caminho (e ainda ficar amiga dela no fb, hahaha) o que pode ser um ótimo contato futuramente, vai saber 🙂 eu não faço muita fotografia de rua, gosto mais de retratos e paisagens de viagem, mas gosto de variar também, então as vezes me pego fazendo coisas novas e estudando algumas coisinhas aleatórias, haha. Amei a penúltima foto, com a senhorinha parada no fundo e outras pessoas em movimento mais a frente, mas gostei de todas as fotos que compartilhou do seu curso 🙂 eu aprendi muita coisa de fotografia com o professor youtube (haha) e lendo muitos blogs que falam sobre isso. Ainda não fiz um curso presencial, mas tô doida pra fazer algum e também investir em workshops de fotógrafos que admiro. Beijos.

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    1. Que bacana teu comentário, K. Fiz apenas um workshop na vida e agora dois cursos e embora eu pelo menos com os fotógrafos dei sorte sempre, porque aprendi muito sobre fotografia e principalmente sobre história da arte e como me comunicar com as pessoas fotografadas. Assim como você também aprendo bastante no Youtube e isso basta, mas se tiveres como investir em fotógrafos que você admira, não deixa de fazer. Minha fotógrafa preferida, Claudia Regina, encantou meu coração no dia do workshop de direção fotográfica. Foi um dia que mudou a minha vida, sabe? Foi muito especial. Ah, amo suas fotos! Que honra que gostou dessa minha série! Brigada ❤ Beijo em você!

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